1.04.2006

O ato da Escrita

(Esta matéria em especial fala de Literatura)



Ela foi e continua sendo discutida, falada, mal falada, analisada sob vários aspectos, esmiuçada, pensada, idealizada por muitos que acham possuir só uma forma de fazê-la. Também continua sendo desmistificada, como no início do século XX. Velha companheira de homens, mulheres, e crianças de todos os tempos, o importante é que a Senhora Literatura está mais viva que nunca.

E, talvez, nunca tenha estado tão viva e democratizada como agora, com o advento da internet. Temos não somente novos leitores, como novos escritores surgindo. E aos mais refratários, ainda, à idéia e ao fato da internet ser também um benefício ocorrido no que tange a arte de escrever e ler, me limito a apontar o grande número de revistas culturais eletrônicas, e-books, sites literários, e blogs, também literários, onde seus donos exercitam o prazer da escrita, da criação, lêem e comentam seus colegas, e assim também aprendem. O suporte blog é sem dúvida um convite à criatividade e ao desenvolvimento e troca de opiniões, pois estar conectado ao mundo, mesmo que virtualmente é uma necessidade, ou seja, comunicar-se. Por isso, também na internet encontramos os grupos, as tribos, de todas as idades, talentos, e gostos.

Se por um lado há muita mesmice, repetição de temas, e até uma certa pobreza de estilo, é certo dizer que muitos ainda estão em fase de sensibilização, e que a prática melhora, e muito, o trabalho com a palavra, com o estilo, e desenvolve, também, a autocrítica.

Leitura e escrita

O estudo e a investigação devem sempre fazer parte desse universo criativo, até para que aquele que escreve tenha uma idéia do que já foi realizado, e o que está sendo criado contemporaneamente. Isso vale tanto textos de ficção em prosa e verso, como ensaios, críticas, artigos; leitura sobre todos os assuntos que nos rodeiam, e também leitura de teoria literária, por quê não? Sim, e se por um lado percebermos que pouco sabemos ainda, por outro, nada melhor que desenvolver uma bagagem de conhecimentos na área que desejamos participar, mesmo que a prática seja um lazer, sem pretensões profissionais.

Mas, o importante vai além do aspecto da leitura do mundo, e do conhecimento teórico. Refiro-me ao refinamento espiritual e intelectual da pessoa que escreve e lê. Refiro-me também à possibilidade de participar da vida, da arte, ser um agente do deslocamento daquilo que está cristalizado na língua, nos signos.

Representação do real

Uma das forças da literatura é a representação do real. Segundo Barthes, em sua “Aula”, o real não é representável, mas demonstrável. E ainda com Lacan, o real é o impossível de ser atingido, escapa ao discurso.

A história da literatura é a história dos que tentaram demonstrar este impossível, este real. É afirmação do delírio, no salutar sentido de escapar ao aprisionamento da língua. E o deslocar-se é aparecer onde não se é esperado. É fazer sentido num espaço outro, reinventando as possibilidades, e impossibilidades, e como já dizia Cecília Meirelles, “a vida só é possível se reinventada”.

A publicidade também usa alguns dos recursos estilísticos usados pela literatura, e trabalha com o imaginário, em imagens e textos, para vender seus produtos. Mas é um uso com uma finalidade já estabelecida. A literatura não precisa se ater a finalidades, até pode, mas não depende dela. Isso não quer dizer que um texto de uma determinada época, qualquer texto, ficção ou não, não represente uma visão de mundo. Tanto na publicidade, artigos jornalísticos, e na ficção em prosa e em verso, há uma explícita ou implícita leitura do mundo. Daí a necessidade de muita leitura em nossos dias, quando vivemos sob uma tempestade de informações na maioria das vezes repetitivas, e apelativas para preconceitos, e para o consumo desbragado de todo o tipo de mercadoria. Falo um pouco mais sobre isso num artigo recente sobre Educação para os Meios de Comunicação de Massa. Na verdade, a mídia pouco orienta e muito aliena.

Mas, voltando ao tema original, dizem haver uma literatura que vende, e outra, bem menos popular. Sim, mas o valor intrínseco da arte da palavra não se mede em quem vendeu mais ou menos. No Brasil, esta realidade também tem muito a ver com o baixo hábito de leitura desde a tenra idade. Normalmente se consome mais uma literatura já mastigada, fácil. Não quero dizer com isso que todos os que muito vendem, ou são muito acessados e lidos pela Web não possuam talento. E também, nem sempre um texto mais denso significa uma novidade em literatura, ou um talento especial.

Vasto campo de estudos

Como se pode perceber, a Literatura é um campo onde nada é definitivo. Cada época e cada obra têm seus aspectos mais ou menos diferenciados. Há uma gama incrível de ensaios, teses, artigos sobre o cânon literário, advindos dos acadêmicos das áreas de Letras, com leituras as mais diversas nos campos dos saberes humanos como Sociologia, Semiótica, Psicanálise. Mas a literatura não se faz apenas de quem elegeu o Cânon; esse “quem” é uma elite.

Infelizmente, nossas faculdades passaram muitos anos deixando à margem de suas pesquisas diversos grandes autores. Aos poucos esta postura vem sendo revista. Inclusive, aos poucos, também, vão se revelando os novos autores que se fizeram, e se fazem, conhecer primeiramente pela internet. Eis aí um vasto campo de estudo, seja pela quantidade de textos, pela forma como são divulgados, digeridos, e até mesmo pelo processo de produção do texto, ou seja, sua gênese, como uma obra se origina. Aqui, neste caso da literatura que vem se fazendo na internet, ou mesmo fora dela, muitas vezes é na tela do computador que se escreve, com um editor que apaga o texto original se assim desejamos (outra opção seria abrir um novo documento para cada mudança, mas isso não é muito interessante para a maioria, claro). E verificamos neste ponto uma pauta para a Crítica Textual (disciplina que procura restaurar o texto original de um documento, que foi alterado no processo de cópia e recópia).

Este é um ponto importantíssimo de análise para aqueles que seguem a carreira de pesquisa em Letras: iniciar um estudo sobre o novo movimento mundial, global, no fazer literário, ou seja, identificar e relatar este histórico momento, quando, mais uma vez, o avanço tecnológico (vide o surgimento da imprensa) determina e/ou renova hábitos culturais.


By Tânia B.

3 Comments:

Blogger Rodrigo Capella said...

Tânia, obrigado por ter visitado o meu blog. Abraços e volte sempre, Rodrigo Capella.

15 janeiro, 2006  
Anonymous Anônimo said...

intiresno muito, obrigado

20 novembro, 2009  
Anonymous Anônimo said...

Muito legal teu texto, guria!
Visão crítica avantajada e crucial, diria eu.
É realmente uma pena que muitas pessoas ainda não percebam o que escreveste, e muitas mais, provavelmente, nunca conseguirão entender. Tudo começa com uma semente (um movimento cultural, como você mesma disse), e apartir daí vai crescendo um fruto, que certamente dará cargas e mais cargas de uma linda fruta que este país muito precisa: Educação!

E, nós, professores, temos essa missão, e muitos, assim como você estão fazendo sua parte.

Parabéns!
Abraceijos!
Alex Sandro M. Spindler

03 agosto, 2010  

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